Entrópio no cão: sinais, riscos e quando é preciso cirurgia

Entropion in dogs: close-up of a husky's face and eyelid margins, the area a veterinarian examines for an inward-rolling lid

Resposta rápida: o entrópio no cão é uma pálpebra que enrola para dentro, de modo que o pelo e o bordo palpebral roçam diretamente na córnea. É um problema estrutural, não uma infeção, e nenhuma gota, lavagem ou suplemento o consegue corrigir: a cirurgia é a única solução definitiva. O que torna o entrópio urgente é aquilo que a fricção provoca: dor crónica, úlceras da córnea e pigmento que pode turvar a visão para sempre.

Os donos costumam reparar nos sintomas muito antes de repararem na pálpebra. O cão pisca ou mantém um olho semicerrado durante semanas, as lágrimas escorrem pela cara e os tratamentos tópicos ajudam durante uns dias, até que tudo volta. Esse padrão de recaídas sucessivas é a marca de um problema mecânico. Em Portugal, onde raças como o Shar Pei, o Bulldog, o Pug, o Rottweiler ou o Labrador são presenças habituais nos consultórios, vale a pena saber reconhecê-lo cedo e perceber o que o seu médico veterinário vai propor.

O que é realmente o entrópio no cão

O bordo da pálpebra deve assentar liso sobre o olho, com as pestanas e a pele com pelo viradas para fora. No entrópio, o bordo vira-se para dentro e a pele com pelo varre a córnea a cada pestanejar, milhares de vezes por dia. A córnea tem uma das inervações sensitivas mais densas de todo o organismo, e é por isso que um cão afetado sente um desconforto real, e não apenas «olhos a chorar».

Existem duas formas principais. O entrópio primário (de desenvolvimento) resulta da conformação hereditária das pálpebras e do crânio e manifesta-se em cães jovens, muitas vezes antes do primeiro aniversário. O entrópio secundário (espástico) é diferente: um olho dorido fecha-se com força e o blefarospasmo prolongado puxa para dentro uma pálpebra que, em si, é normal. A distinção tem importância clínica, porque o entrópio espástico pode desaparecer quando se trata a dor que o causa, ao passo que o entrópio primário não desaparece.

Raças com maior risco de entrópio

O Chow Chow, o Shar Pei, o Bulldog, o Bullmastiff, o Rottweiler, o Dogue Alemão, o São Bernardo, o Labrador Retriever, o Pug e o Shih Tzu estão todos sobrerrepresentados. Numa série cirúrgica de 311 olhos (269 de cães e 42 de gatos) operados a entrópio da pálpebra inferior, as raças caninas mais frequentes foram o Shar Pei, o Rottweiler, o Bullmastiff e o Labrador Retriever (Read e Broun, Veterinary Ophthalmology, 2007).

Em Portugal, o padrão de raça e o registo genealógico seguem a FCI através do Clube Português de Canicultura. Se está a pensar adotar ou comprar um cachorro de uma raça de cara enrugada ou de pele facial solta, pergunte ao criador se os pais ou irmãos de ninhada foram operados a entrópio e peça que um médico veterinário examine as pálpebras do cachorro na primeira consulta, logo ao colocar o microchip e fazer o registo no SIAC. O mesmo exame das pálpebras faz sentido nas raças portuguesas de grande porte e cabeça volumosa, como o Cão da Serra da Estrela ou o Rafeiro do Alentejo, sobretudo se o cachorro lacrimeja ou mantém um olho semicerrado.

Sinais de entrópio no cão

  • Olho semicerrado ou piscar persistente, muitas vezes pior com luz forte
  • Lacrimejo constante e pelo húmido e manchado por baixo do olho
  • Vermelhidão da parte branca do olho e da face interna da pálpebra
  • O cão leva a pata ao olho ou esfrega a cara nos móveis e no tapete
  • Muco espesso no canto do olho, apesar de limpezas regulares
  • Uma pálpebra que se vê enrolada para dentro quando observa o bordo com boa luz
  • Uma zona turva, azul-acinzentada ou acastanhada na córnea, nos casos de longa duração

O piscar ou fechar de um olho merece atenção especial: é o sinal externo mais fiável de dor ocular no cão, e é por isso que um cão a piscar ou a fechar um olho nunca deve ficar em observação durante dias. Se o olho também lacrimeja sem parar, o nosso guia sobre olhos lacrimejantes no cão explica o lado da drenagem lacrimal. No verão português, a poeira dos passeios no Alentejo, a areia das praias do Algarve e os pólenes da primavera também irritam os olhos e podem confundir o quadro; a diferença é que uma irritação passageira melhora em poucos dias, e o entrópio volta sempre.

Porque é que o entrópio é mais do que um problema estético

A abrasão contínua da córnea tem duas consequências bem documentadas.

Úlcera da córnea. A fricção destrói o epitélio da córnea. Numa série de 27 Shar Pei operados com a técnica de granulação forçada de Stades, todos os cães apresentavam, antes da cirurgia, sinais de desconforto ocular intenso com queratite bilateral, blefarospasmo, enoftalmia e protrusão da terceira pálpebra, e 13 dos 54 olhos tinham já uma úlcera da córnea associada (Asti e colegas, New Zealand Veterinary Journal, 2020). Uma úlcera é um problema para resolver com o veterinário no próprio dia; o nosso guia sobre a úlcera ocular no cão explica o que isso implica.

Queratite pigmentar. A irritação crónica leva a córnea a depositar um pigmento castanho que não regride. Num estudo com 210 Pugs observados no Reino Unido, a queratite pigmentar foi detetada em 369 dos 420 olhos (87,8 %), e a sua presença associou-se de forma significativa à idade e ao entrópio medial da pálpebra inferior; a gravidade da pigmentação acompanhou o grau desse entrópio (Maini e colegas, BMC Veterinary Research, 2019). Quando o pigmento chega ao eixo visual, a perda de visão é permanente. Outras inflamações crónicas da córnea também deixam pigmento, e é o exame que permite distingui-las.

É esta a razão honesta para tratar o entrópio cedo, em vez de o ir gerindo indefinidamente com toalhitas e gotas.

Como o médico veterinário diagnostica o entrópio

O diagnóstico faz-se com um exame oftalmológico, não com imagiologia. O médico veterinário avalia a conformação das pálpebras, cora a córnea com fluoresceína para procurar úlceras e, muitas vezes, aplica uma gota de anestésico tópico. Este último passo é o ponto de viragem do diagnóstico: se a pálpebra volta à posição normal quando a dor fica adormecida, o entrópio é espástico e secundário a outro problema. Se continua enrolada para dentro, é anatómico.

Nos casos complexos, sobretudo em cachorros de raças com muitas pregas faciais ou quando as duas pálpebras estão afetadas, o seu médico veterinário pode encaminhá-lo para um colega com diferenciação em oftalmologia veterinária. A Ordem dos Médicos Veterinários é a entidade que regula a profissão em Portugal.

Tratamento do entrópio: o que funciona e o que não funciona

Abordagem O que faz Corrige a pálpebra?
Cirurgia de Hotz-Celsus (± ressecção em cunha lateral) Remove um crescente de pele para virar o bordo palpebral para fora Sim, de forma definitiva
Suturas temporárias de fixação (tacking) em cachorros Mantêm a pálpebra para fora enquanto o crânio amadurece Por vezes; muitas vezes é uma ponte até à cirurgia
Preenchimento subcutâneo com ácido hialurónico Vira a pálpebra para fora sem cirurgia; efeito temporário Parcialmente, durante um período limitado
Gotas antibióticas ou lubrificantes Tratam a úlcera ou protegem a superfície do olho Não
Lavagens oculares e produtos de higiene Removem sujidade e secreções em redor de um olho normal Não

Os resultados cirúrgicos são bons. A técnica combinada de Hotz-Celsus com ressecção em cunha lateral corrigiu o entrópio com uma única intervenção em 94,2 % dos 311 olhos operados (Read e Broun, 2007). Nos cães jovens, um estudo retrospetivo de 2024 publicado no JAVMA, com 116 cães, não encontrou diferença estatisticamente significativa na recidiva entre olhos operados na idade adulta (6 em 75, 8 %) e olhos de cães juvenis (10 em 79, 12,7 %); as suturas temporárias, por si só, resolveram o entrópio em 36,6 % de 71 olhos. É por isso que já não se considera necessário esperar que o cão faça um ano para o operar (Lavallée e colegas, JAVMA, 2024).

Quanto ao ácido hialurónico, uma série de 40 animais (28 cães e 12 gatos) tratados com preenchimento subcutâneo, sem sedação nem anestesia geral, mostrou resolução do entrópio e das complicações secundárias na primeira semana na maioria dos casos; três cães e um gato precisaram depois de cirurgia definitiva. Os autores consideram a técnica uma opção para entrópio ligeiro a moderado, sobretudo em cães idosos ou com risco anestésico elevado (McDonald e Knollinger, Veterinary Ophthalmology, 2019).

Em Portugal, tal como no resto da União Europeia, as gotas antibióticas, os anti-inflamatórios e os corticosteroides oftálmicos são medicamentos veterinários sujeitos a receita, nos termos do Regulamento (UE) 2019/6; a DGAV é a autoridade que os autoriza e controla. Não use em casa um frasco que sobrou de outro tratamento.

Onde entram os cuidados oculares diários, e onde não entram

Nenhum produto de higiene trata o entrópio. O que uma lavagem faz é manter a superfície do olho livre das secreções, poeira e detritos que um olho cronicamente irritado produz, e evitar que o pelo por baixo do olho fique sempre húmido, tanto antes da cirurgia como durante a recuperação, sempre com o acordo do seu médico veterinário.

As nossas gotas suaves para os olhos do cão foram formuladas para essa função limitada, num olho normal e sem lesões: pH neutro de 7,0–7,2 para não arderem, hialuronato de sódio a 0,05 % e sem álcool, lixívia nem fragrância, ao contrário de muitos removedores de manchas de lágrimas vendidos em supermercados. São estéreis e não medicamentosas: limpam e acalmam, não tratam. Para um apoio nutricional a mais longo prazo, a Visão avançada, gotas à base de plantas para os olhos e a visão, é um suplemento com extratos antioxidantes de bagas, curcuma e gengibre que se junta à comida, e não um medicamento. Nenhum dos dois trata uma úlcera, uma infeção ou um defeito estrutural da pálpebra, e nenhum substitui o que o seu médico veterinário receitar. Os suplementos para animais regem-se pelo Regulamento (CE) n.º 767/2009, que não permite atribuir-lhes propriedades medicinais; apresentamo-los como apoio aos cuidados diários, nunca como tratamento. Os dois têm envio grátis para Portugal.

Nunca use gotas humanas para «tirar o vermelho», como as que contêm tetrahidrozolina ou nafazolina: mascaram a inflamação, são tóxicas se forem engolidas e podem atrasar o tratamento de um olho dorido. Nunca aplique uma gota de corticosteroide que sobrou de outra vez num olho que possa ter uma úlcera. Se tem dúvidas sobre o que pode usar sem receita, pergunte ao seu médico veterinário ou ao farmacêutico.

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Olhos limpos e confortáveis, antes e depois da cirurgia

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Entrópio no cão: quando ligar hoje ao veterinário

  • O olho está fechado ou o cão afasta a cabeça quando lhe tenta tocar na cara
  • Uma névoa visível, uma mancha baça ou uma pequena cratera na córnea
  • Secreção verde ou amarela, ou secreção que aumentou de repente
  • Uma coloração castanha ou azulada a espalhar-se pela córnea
  • Qualquer pálpebra enrolada para dentro num cachorro: as suturas temporárias precoces protegem a córnea

Fora do horário da sua clínica, contacte de imediato o seu médico veterinário ou um hospital veterinário com urgência 24 horas.

Para ler a seguir: o nosso guia completo da saúde ocular do cão. Pode também ver toda a gama Pure Majesty Pets.

Perguntas frequentes

O entrópio no cão pode desaparecer sozinho?

O entrópio espástico, causado por um olho dorido, pode desaparecer quando se trata a dor que o provoca. O entrópio primário, de conformação, não desaparece sozinho e precisa de correção cirúrgica.

Quanto custa a cirurgia ao entrópio de um cão em Portugal?

O custo varia muito consoante a clínica e a região, se é um olho ou os dois, e se a cirurgia é feita pelo médico veterinário assistente ou por um colega com diferenciação em oftalmologia. Peça à clínica um orçamento escrito que inclua a anestesia e as consultas de revisão e, se tiver seguro de saúde para o seu cão, confirme se a apólice exclui doenças congénitas ou hereditárias.

O entrópio dói ao cão?

Sim. O pelo e o bordo da pálpebra a raspar numa córnea muito inervada causam dor contínua, e é por isso que os cães afetados piscam, lacrimejam e esfregam a cara.

Com que idade se deve operar o entrópio?

Nos cachorros recorre-se muitas vezes a suturas temporárias enquanto a conformação da cara amadurece. Um estudo publicado em 2024 não encontrou um aumento significativo da recidiva quando a cirurgia definitiva foi feita antes de um ano de idade, por isso o momento certo é uma decisão a tomar com o seu médico veterinário e não uma regra fixa.

Posso usar gotas para os olhos enquanto espero pela cirurgia?

Só as que o seu médico veterinário indicar. Uma lavagem estéril e não medicamentosa ajuda a manter o olho e o pelo limpos, mas não corrige a pálpebra. Gotas antibióticas ou com corticosteroide são medicamentos sujeitos a receita veterinária e só devem ser usadas depois de o veterinário excluir uma úlcera.

O entrópio é hereditário? Devo evitar criar com um cão operado?

O entrópio primário reflete a conformação hereditária das pálpebras e do crânio, por isso é prudente falar com o médico veterinário e com o criador antes de pôr a reproduzir um cão que precisou de cirurgia. Ao comprar um cachorro, pergunte se os pais foram operados.

Fontes

  1. Read RA, Broun HC. Entropion correction in dogs and cats using a combination Hotz-Celsus and lateral eyelid wedge resection: results in 311 eyes. Veterinary Ophthalmology. 2007;10(1):6-11. PMID 17204122
  2. Lavallée G, Curto EM, Gratzek AT. Long-term success rate of entropion surgery is equivalent in juvenile and adult dogs. Journal of the American Veterinary Medical Association. 2024;262(2):1-5. PMID 37562785
  3. Asti M, Nardi S, Barsotti G. Surgical management of bilateral, upper and lower eyelid entropion in 27 Shar Pei dogs, using the Stades forced granulation procedure of the upper eyelid only. New Zealand Veterinary Journal. 2020;68(2):112-118. PMID 31738860
  4. Maini S, Everson R, Dawson C, Chang YM, Hartley C, Sanchez RF. Pigmentary keratitis in pugs in the United Kingdom: prevalence and associated features. BMC Veterinary Research. 2019;15(1):384. PMID 31666065
  5. McDonald JE, Knollinger AM. The use of hyaluronic acid subdermal filler for entropion in canines and felines: 40 cases. Veterinary Ophthalmology. 2019;22(2):105-115. PMID 29520917
  6. Regulamento (UE) 2019/6, relativo aos medicamentos veterinários — EUR-Lex
  7. Regulamento (CE) n.º 767/2009, colocação no mercado e utilização de alimentos para animais — EUR-Lex
  8. DGAV, Medicamentos veterinários — dgav.pt
  9. Ordem dos Médicos Veterinários — omv.pt
  10. Clube Português de Canicultura — cpc.pt

Este artigo tem fins informativos e não substitui o exame, o diagnóstico nem o tratamento pelo seu médico veterinário. O entrópio é diagnosticado e corrigido por um médico veterinário. Se o seu cão está a piscar um olho, tem dores ou alterações visíveis na córnea, contacte no próprio dia o seu médico veterinário ou um hospital veterinário com urgência 24 horas.