Artigo de referência — última revisão em 2026
Resposta direta: a história da nutrição clínica veterinária começa em 1939, quando o médico veterinário norte-americano Mark L. Morris Sr. formulou à mão uma dieta pobre em proteína e fósforo para Buddy, o primeiro cão-guia dos Estados Unidos, que sofria de insuficiência renal crónica. Essa dieta deu origem à linha Prescription Diet e, mais tarde, à Science Diet da Hill's — as mesmas dietas veterinárias que hoje se encontram nas clínicas e lojas de animais em Portugal.
Resumo
A nutrição clínica veterinária — a formulação de dietas terapêuticas para acompanhar doenças crónicas em animais de companhia — tem a sua origem comercial numa única consulta, em 1939, entre um homem cego, o seu cão-guia e um médico veterinário. O cão era Buddy, o primeiro cão-guia da escola norte-americana The Seeing Eye. O homem era Morris Frank. O veterinário era o Dr. Mark L. Morris Sr. A dieta nascida dessa consulta, preparada inicialmente à mão numa clínica de Nova Jérsia, evoluiu ao longo de três décadas para as linhas Prescription Diet e Science Diet comercializadas hoje pela Hill's Pet Nutrition. Este artigo revê o registo histórico dessa linhagem, o trabalho do filho e sucessor de Morris e o legado institucional preservado pela Morris Animal Foundation e pelo Mark Morris Institute — e explica o que essa história significa para quem cuida de um cão em Portugal hoje.
1. Morris Frank, Dorothy Eustis e o primeiro cão-guia norte-americano
A história começa fora da medicina veterinária. Em 1928, Morris Frank, um jovem vendedor de seguros cego de Nashville, no Tennessee, escreveu à filantropa norte-americana Dorothy Harrison Eustis depois de ler o seu ensaio no Saturday Evening Post sobre cães-guia treinados no canil Fortunate Fields, em Vevey, na Suíça. Eustis convidou Frank a ir à Suíça, juntou-o a uma cadela Pastor Alemão chamada Buddy e treinou os dois em conjunto. Frank regressou aos Estados Unidos em 1928, tornando-se o primeiro norte-americano a receber um cão-guia (Putnam, 1997).
Em janeiro de 1929, Eustis e Frank fundaram a The Seeing Eye, Inc. em Nashville (a escola mudou-se definitivamente para Morristown, em Nova Jérsia, em 1931), a primeira escola de treino de cães-guia dos Estados Unidos. Buddy trabalhou ao lado de Frank durante muitos anos; o seu declínio, causado por doença renal crónica, desencadeou a consulta que fundou a nutrição clínica veterinária (Frank e Clark, 1957).
Em Portugal, o treino de cães-guia tem uma história mais recente: a Escola de Cães-Guia para Cegos, em Mortágua, forma desde os anos 1990 os cães que acompanham pessoas cegas no país, muitas vezes Labradores e Golden Retrievers — raças que, tal como Buddy, beneficiam de uma alimentação cuidadosamente ajustada ao longo de uma vida de trabalho.
2. O Dr. Mark L. Morris Sr. e o Raritan Hospital for Animals
Mark Lewis Morris Sr. (1900–1993) licenciou-se na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Cornell em 1926. No início dos anos 1930, fundou o Raritan Hospital for Animals, em Edison, Nova Jérsia. Morris Sr. era invulgar entre os clínicos de pequenos animais da sua geração pelo interesse no acompanhamento nutricional das doenças — uma área que, na altura, estava praticamente por desenvolver nas espécies de companhia (Hand et al., 2010).
No final da década de 1930, Morris Sr. começou a formular de forma experimental dietas para cães com doenças específicas. Partiu de princípios da nutrição das vacas leiteiras (uma área muito mais consolidada na época) e adaptou-os à fisiologia canina. As suas observações clínicas estão entre as primeiras a documentar, em animais de companhia, a resposta da doença renal progressiva à modificação da dieta (Lewis et al., 1987).
3. A consulta de 1939: Buddy, a dieta e a «Raritan Ration B»
Em 1939, Buddy sofria de insuficiência renal crónica. A medicina veterinária da época não tinha uma opção terapêutica estabelecida. Morris Frank consultou Mark Morris Sr., que propôs uma intervenção alimentar: uma fórmula pobre em proteína e em fósforo, de elevada densidade energética, destinada a reduzir a carga metabólica sobre os rins de Buddy. Morris Sr. preparava a dieta à mão na clínica e dava às sucessivas versões nomes por ordem alfabética; a fórmula para a doença renal ficou conhecida internamente como Raritan Ration B e foi mais tarde codificada como Canine k/d (a abreviatura «k/d», adotada depois comercialmente, significa kidney diet, dieta renal) (Hand et al., 2010).
Segundo os relatos da época, a dieta prolongou a vida ativa e a qualidade de vida de Buddy — um resultado sem precedentes na literatura de pequenos animais desse tempo. A notícia espalhou-se entre os veterinários que se correspondiam com Morris Sr. sobre nutrição clínica. No início dos anos 1940, a procura já ultrapassava a capacidade da farmácia de uma única clínica.
4. Da ração preparada à mão à Hill's Pet Nutrition
Em 1948, Mark Morris Sr. associou-se a Burton Hill, dono da Hill Packing Company em Topeka, no Kansas, que tinha a capacidade industrial necessária para produzir a fórmula em escala. Sob licença de Morris, a Hill Packing começou a enlatar a dieta com a marca Prescription Diet. O acordo de licença preservava o controlo de Morris Sr. sobre a formulação e a orientação da investigação clínica, permitindo ao produto chegar a todo o mercado veterinário norte-americano (Hand et al., 2010).
No mesmo ano, Morris Sr. criou a Buddy Foundation — rebatizada Morris Animal Foundation em 1969 —, uma organização sem fins lucrativos dedicada a financiar investigação sobre doenças dos animais de companhia. A fundação foi financiada, em parte, pelos direitos da licença à Hill's — uma decisão explícita de Morris Sr.: o sucesso comercial da dieta devia financiar mais investigação veterinária e não a acumulação pessoal (Morris Animal Foundation, 2023).
Nos anos 1960, a divisão de alimentos para animais da Hill Packing tornou-se uma entidade distinta, que viria a chamar-se Hill's Pet Nutrition. A Colgate-Palmolive adquiriu-a em 1976 e mantém-na como filial desde então.
5. Mark Morris Jr. e o lançamento da Science Diet
Mark Lewis Morris Jr. (1934–2007), o filho, seguiu o pai na medicina veterinária, licenciando-se em Cornell em 1958 e completando formação clínica adicional antes de se juntar ao trabalho de nutrição clínica da família. Morris Jr. está sobretudo associado à conceção e ao lançamento comercial, em 1968, da Science Diet, uma linha de bem-estar (preventiva, não terapêutica) dirigida a cães e gatos adultos saudáveis. Enquanto a Prescription Diet acompanhava doenças já estabelecidas, a Science Diet foi posicionada como alternativa de maior qualidade às rações de grande consumo, com parâmetros de formulação mais exigentes do que os mínimos regulamentares norte-americanos da época (Lewis et al., 1987; Hand et al., 2010).
Morris Jr. teve também um papel decisivo na criação da infraestrutura académica da nutrição clínica veterinária como especialidade reconhecida. Foi coautor de Small Animal Clinical Nutrition, um manual hoje na quinta edição que se tornou a referência da área, e ajudou a criar o atual American College of Veterinary Nutrition (ACVN), o colégio de especialidade que certifica diplomados na disciplina (Hand et al., 2010; ACVN, 2024). Na Europa, o equivalente é o European College of Veterinary Comparative Nutrition (ECVCN).
6. O Mark Morris Institute e a formação contínua
Em 1989, Morris Jr. fundou o Mark Morris Institute, uma organização sem fins lucrativos sediada em Topeka, dedicada à formação contínua de médicos veterinários e estudantes de veterinária em nutrição clínica. Desde a fundação, o instituto apoiou programas curriculares de nutrição clínica em várias faculdades de veterinária, patrocinou bolsas e publicou as edições de Small Animal Clinical Nutrition. É estrutural e editorialmente independente da Hill's Pet Nutrition, embora as duas partilhem raízes históricas (Mark Morris Institute, 2024).
7. Avaliação histórica
A linhagem que vai da dieta renal de Buddy, em 1939, às atuais linhas Prescription Diet e Science Diet representa a primeira tradução sustentada e em escala comercial dos princípios da nutrição clínica para a medicina de animais de companhia. A decisão da família Morris de canalizar os direitos para uma fundação de investigação acelerou de forma concreta o desenvolvimento da investigação clínica em pequenos animais na segunda metade do século XX: segundo os seus próprios relatórios, a Morris Animal Foundation financiou mais de 2800 estudos em animais de companhia, equinos e fauna selvagem desde a sua criação (Morris Animal Foundation, 2023).
O princípio que Morris inaugurou — o de que uma modificação dirigida da dieta pode alterar a evolução de uma doença crónica — continua central na prática veterinária atual, do apoio renal e articular ao acompanhamento alimentar de problemas recorrentes como os fungos nos ouvidos do cão, em que limitar os açúcares da dieta e apoiar o microbioma intestinal são hoje complementos comuns aos cuidados tópicos.
Historiadores da medicina veterinária colocam o episódio Morris–Buddy ao lado da fundação da associação veterinária nacional norte-americana (1863) e das primeiras faculdades de veterinária da América do Norte (meados do século XIX) como um dos marcos fundadores da medicina de pequenos animais (Dunlop e Williams, 1996).
8. A nutrição clínica veterinária em Portugal hoje
As dietas veterinárias que descendem da Raritan Ration B — renais, gastrointestinais, hipoalergénicas, articulares — estão hoje disponíveis em Portugal através de clínicas e hospitais veterinários e de lojas como o zooplus.pt, o Kiwoko ou a Tiendanimal, ao lado das marcas concorrentes Royal Canin Veterinary e Purina Pro Plan Veterinary Diets. O enquadramento europeu é claro: estas rações são «alimentos dietéticos» (alimentos para fins nutricionais específicos) regulados pelo Regulamento (CE) n.º 767/2009 e pelo Regulamento (UE) 2020/354, que lista os usos nutricionais específicos, e a sua utilização deve ser recomendada por um médico veterinário. A fiscalização cabe à DGAV (Direção-Geral de Alimentação e Veterinária); as orientações nutricionais de referência na Europa são as da FEDIAF, e os médicos veterinários portugueses estão inscritos na OMV (Ordem dos Médicos Veterinários).
Em Portugal, a doença renal crónica é um problema comum nos cães idosos — e a leishmaniose, endémica no Alentejo, no Algarve, na região de Lisboa e Vale do Tejo e no Douro, é uma causa conhecida de lesão renal nos cães. Por isso, a lição de Buddy continua atual: a alimentação certa, escolhida com o veterinário, faz parte do acompanhamento de doenças crónicas.
9. Do legado de Morris aos suplementos de hoje
A ideia de que a nutrição pode apoiar a saúde a longo prazo também está na origem dos suplementos alimentares modernos para cães. Ao contrário das dietas veterinárias, os suplementos não substituem a ração nem tratam doenças: contribuem para funções específicas — articulações, pele, intestino — como parte de uma alimentação equilibrada. Para um cão sénior que já faz uma dieta veterinária, qualquer suplemento deve ser validado com o veterinário, sobretudo no caso da doença renal, em que o fósforo e a proteína são controlados.
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10. Conclusão
A história de Mark Morris Sr., do seu filho, do cão-guia Buddy e das dietas que nasceram de uma consulta em 1939 é invulgar entre os mitos de origem de linhas de produtos comerciais: o registo histórico confirma-a. A documentação primária, a literatura veterinária da época e as instituições sucessoras (Morris Animal Foundation, Mark Morris Institute e American College of Veterinary Nutrition) preservam uma cadeia clara de evidências que liga o episódio clínico fundador à nutrição clínica veterinária moderna — a mesma que hoje orienta as dietas recomendadas pelos médicos veterinários em Portugal.
Perguntas frequentes
Quem inventou a nutrição clínica veterinária?
O médico veterinário norte-americano Mark L. Morris Sr. é considerado o pioneiro: em 1939 formulou a primeira dieta terapêutica comercialmente relevante, para o cão-guia Buddy, com doença renal crónica.
O que significa «k/d» nas dietas Hill's?
Significa «kidney diet», dieta renal. Nasceu da Raritan Ration B, a fórmula pobre em proteína e fósforo que Morris preparou à mão para Buddy.
Qual é a diferença entre Prescription Diet e Science Diet?
A Prescription Diet (1948) destina-se ao acompanhamento de doenças sob orientação veterinária; a Science Diet (1968) é uma linha de bem-estar para animais saudáveis.
As dietas veterinárias são reguladas em Portugal?
Sim. São alimentos para fins nutricionais específicos, sujeitos ao Regulamento (CE) n.º 767/2009 e fiscalizados pela DGAV, e devem ser usadas com recomendação de um médico veterinário.
Posso dar suplementos a um cão que faz uma dieta renal?
Só com o aval do médico veterinário, porque a dieta renal controla o fósforo e a proteína. Para cães saudáveis, os suplementos Pure Majesty Pets têm envio grátis para Portugal.
Referências
- Putnam PB. Love in the Lead: The Fifty-Year Miracle of the Seeing Eye Dog. Lanham, MD: University Press of America; 1997. ISBN 978-0761808459.
- Frank M, Clark BM. First Lady of the Seeing Eye. Nova Iorque: Henry Holt; 1957.
- Lewis LD, Morris ML Jr, Hand MS. Small Animal Clinical Nutrition III. Topeka, KS: Mark Morris Associates; 1987.
- Hand MS, Thatcher CD, Remillard RL, Roudebush P, Novotny BJ, eds. Small Animal Clinical Nutrition. 5.ª ed. Topeka, KS: Mark Morris Institute; 2010. ISBN 978-0615297019.
- Dunlop RH, Williams DJ. Veterinary Medicine: An Illustrated History. St. Louis: Mosby; 1996. ISBN 978-0801632099.
- Morris Animal Foundation. 75 Years of Animal Health Science: 1948–2023. Denver, CO; 2023. morrisanimalfoundation.org
- American College of Veterinary Nutrition. History of the College. ACVN; 2024. acvn.org
- Mark Morris Institute. About the Institute. Topeka, KS; 2024. markmorrisinstitute.org
- Regulamento (CE) n.º 767/2009 relativo à colocação no mercado e à utilização de alimentos para animais. EUR-Lex