A anatomia do ouvido do cão resume-se a três partes que trabalham em conjunto: o ouvido externo (o pavilhão auricular, a que chamamos orelha, e o canal auditivo), o ouvido médio (o tímpano e três ossículos minúsculos) e o ouvido interno (a cóclea, responsável pela audição, e o sistema vestibular, responsável pelo equilíbrio). Perceber esta organização torna o tema muito menos abstrato e explica porque é que alguns problemas de ouvidos são ligeiros, enquanto outros exigem uma ida rápida ao médico veterinário.
Para quem vive com um cão em Portugal, este conhecimento tem uma utilidade muito prática: os banhos de mar e de rio no verão, a humidade do inverno no litoral e as praganas das searas e dos caminhos de terra entre a primavera e o verão encontram no canal auditivo do cão o sítio ideal para causar problemas. Vamos percorrer o ouvido de fora para dentro.
Ouvido externo do cão: pavilhão auricular e canal auditivo em L
O pavilhão auricular é a parte visível, uma aba de cartilagem revestida de pele. O cão consegue mover cada orelha de forma independente, e a forma varia muito de raça para raça: das orelhas eretas «de morcego» do Bulldogue Francês às abas compridas e pesadas do Basset Hound, passando pelas orelhas caídas do Cão de Água Português ou pelas orelhas eretas e móveis do Podengo Português. A função do pavilhão é captar o som e encaminhá-lo para o canal.
É no canal auditivo que a maioria dos donos encontra dificuldades. Segundo uma revisão de dermatologia veterinária de Cole, o canal vertical desce cerca de 2,5 cm a partir da abertura e depois dobra, formando o canal horizontal, que termina no tímpano. Essa curva em forma de L é a chave de todos os cuidados com os ouvidos: resíduos, humidade e cera podem acumular-se no ângulo, e não é possível ver para lá dele olhando simplesmente para a abertura. A revisão descreve ainda que a cartilagem auricular toma a forma de um funil à entrada do canal, o que ajuda a conduzir o som, mas também a reter o que lá entra.
O canal está revestido de pele com glândulas que produzem cera (cerúmen). Uma cera saudável faz parte da «limpeza» natural do ouvido, e pequenas quantidades de cera clara a castanho-clara são comuns. Se quer saber como limpar o ouvido externo com segurança, o nosso guia passo a passo para limpar os ouvidos do cão em casa explica a técnica. Para a limpeza de rotina, um produto próprio para o ouvido do cão, como o limpador de ouvidos Pure Majesty Pets, com ácido salicílico a 0,2 % para amolecer a cera e pH ajustado (5,0–5,5), atua exatamente onde a anatomia complica as coisas: no fundo do canal, depois da curva.
Ouvido médio: tímpano, ossículos e trompa auditiva
No fim do canal horizontal encontra-se a membrana timpânica, ou tímpano, uma membrana semitransparente. Atrás dela há uma câmara cheia de ar, a cavidade timpânica (que inclui a bula timpânica), onde ficam três pequenos ossos chamados ossículos. Segundo o Manual Veterinário MSD/Merck, estes ossos transmitem e amplificam as vibrações do tímpano até ao ouvido interno, e uma trompa auditiva liga o ouvido médio à parte de trás do nariz (a nasofaringe) para que a pressão do ar se possa equilibrar.
O tímpano importa por uma razão prática. Quando está intacto, funciona como barreira entre o canal externo e o ouvido médio. Uma infeção do ouvido externo grave ou prolongada pode danificá-lo, e é por isso que os médicos veterinários evitam muitas vezes aplicar certos medicamentos no ouvido antes de confirmarem, com um otoscópio, que o tímpano está íntegro. É também por isso que qualquer produto de limpeza, mesmo suave, deve ser evitado se houver suspeita de tímpano perfurado. No estudo de Saridomichelakis e colegas com 100 cães com otite externa, a perfuração do tímpano com otite média surgiu em 25 dos casos, um lembrete de que o problema nem sempre fica «à superfície».
Em Portugal, os medicamentos para os ouvidos (gotas com antibiótico, antifúngico ou corticosteroide) são medicamentos veterinários sujeitos a receita veterinária, nos termos do Regulamento (UE) 2019/6 e com autorização e controlo da DGAV. Não reutilize gotas de um tratamento anterior nem de outro animal sem o médico veterinário ter observado o tímpano.
Ouvido interno do cão: audição e equilíbrio
O ouvido interno fica dentro de uma estrutura óssea do crânio. Aloja a cóclea, que converte as vibrações em sinais nervosos para a audição, e o sistema vestibular, que controla o equilíbrio e a noção da posição do corpo. Como o equilíbrio e a audição partilham este espaço, um problema aqui parece muitas vezes mais do que um simples «problema de ouvidos»: cabeça inclinada, desequilíbrio, andar em círculos ou olhos a oscilar de um lado para o outro (nistagmo). Explicamos estes sinais em pormenor no nosso guia sobre os sintomas de otite interna no cão.
Na parede interna da cavidade timpânica há duas «janelas» que fazem a ponte entre o ouvido médio e o interno: a janela vestibular (oval), onde se apoia o último ossículo, e a janela coclear (redonda). É por esta proximidade que uma infeção do ouvido médio pode, em casos mais graves, afetar o equilíbrio.
Porque é que a anatomia do ouvido torna o cão propenso a otites
Um canal longo e dobrado, que se mantém quente e húmido, é um bom ambiente para microrganismos. A doença do ouvido no cão tem quase sempre mais do que um fator na origem. No estudo retrospetivo de Saridomichelakis e colegas (2007), as causas primárias mais frequentes foram a dermatite alérgica (43 em 100 cães), as praganas e outras espiguetas de gramíneas (12 em 100) e os ácaros do ouvido (7 em 100); as leveduras Malassezia (66 em 100), os cocos e os bacilos surgiram como fatores secundários, e o estreitamento do canal e a perfuração do tímpano como fatores que perpetuam a otite. Em 63 % dos cães a otite era crónica ou recorrente.
A conformação também conta. Um estudo do Reino Unido com cães acompanhados em clínicas de cuidados primários encontrou uma prevalência anual de inflamação do canal auditivo (otite externa) de 7,3 %. As raças de orelhas pendentes tinham cerca de 1,76 vezes mais probabilidade (odds) de otite externa do que as de orelhas eretas, e as de orelhas caídas em V cerca de 1,84 vezes (O'Neill et al., 2021). Raças como o Basset Hound, o Shar Pei e o Beagle estavam entre as de maior risco, enquanto o Chihuahua surgiu como uma das raças com menor risco. As orelhas eretas não são imunes, mas arejam com mais facilidade.
O que isto significa para um cão em Portugal
- Praganas no verão. Entre o fim da primavera e o verão, as espiguetas secas das gramíneas nos campos, nas bermas e nos parques entram com facilidade no canal e descem até à curva. Abanar a cabeça de repente depois de um passeio no campo é um sinal clássico; só o médico veterinário, com otoscópio, consegue retirá-las com segurança.
- Água do mar, rio e piscina. A água que entra no canal fica retida precisamente no ângulo do L. Raças que adoram água, como o Cão de Água Português ou o Labrador, beneficiam de uma secagem cuidadosa depois de cada banho.
- Humidade do litoral no inverno. Em cidades como Lisboa, Porto ou Aveiro, a humidade persistente favorece o crescimento de fungos como a Malassezia em orelhas pesadas e pouco arejadas.
- Pólenes na primavera. Como a alergia é a causa primária mais frequente de otite, os cães com dermatite atópica costumam ter mais episódios na época dos pólenes.
Anatomia do ouvido do cão: quadro resumo
| Parte | Estruturas principais | Função | Problema frequente |
|---|---|---|---|
| Ouvido externo | Pavilhão auricular, canal vertical, canal horizontal | Capta o som e conduz até ao tímpano | Otite externa, acumulação de cera, praganas, lesões da orelha (otohematoma) |
| Ouvido médio | Tímpano, três ossículos, trompa auditiva | Transmite e amplifica as vibrações | Otite média, tímpano perfurado |
| Ouvido interno | Cóclea, sistema vestibular | Audição e equilíbrio | Cabeça inclinada, perda de equilíbrio, alterações da audição |
Cuidados diários com os ouvidos do cão que respeitam a anatomia
Conhecer a estrutura do ouvido leva a algumas rotinas sensatas:
- Secar depois do banho e da natação, porque a humidade retida fica exatamente onde o canal dobra.
- Verificar uma vez por semana: um ouvido saudável tem cor rosa-clara, quase nenhum cheiro e não incomoda o cão.
- Não introduzir cotonetes no canal, porque podem empurrar os resíduos contra o tímpano. Limpe apenas o que consegue ver.
- Usar um limpador próprio quando há cera em excesso: encha o canal com o produto, massaje a base da orelha cerca de 20 segundos, deixe o cão abanar a cabeça e retire com um disco de algodão o que saiu. O limpador de ouvidos para cães da Pure Majesty Pets não contém clorexidina, não arde e junta aloé (Aloe ferox a 10 %), pantenol, alantoína e fitoesfingosina para acalmar a pele do canal, e ciclodextrina natural para neutralizar o odor em vez de o disfarçar com perfume. Não o use se suspeitar de tímpano perfurado.
Os ouvidos refletem também o que se passa no resto do organismo, e muitos donos acrescentam um apoio «de dentro para fora» em cães com orelhas que voltam a cheirar a leveduras, como as nossas gotas de apoio ao equilíbrio das leveduras (uso exclusivamente oral, misturadas na comida), sempre a par da orientação veterinária e de uma boa higiene dos ouvidos. Se o problema é recorrente, peça ao médico veterinário uma citologia do ouvido para confirmar se há fungos (Malassezia) ou bactérias.
Se não tem a certeza de que o que vê é normal, a lista de verificação do nosso guia de sintomas de otite no cão mostra o que procurar, e o guia completo da otite canina liga cada problema ao seu contexto.
Pure Majesty Pets em Portugal
Ouvidos limpos até depois da curva do canal
- Limpador de ouvidos para cães, 26,95 €: ácido salicílico a 0,2 % para dissolver a cera, ciclodextrina contra o odor, aloé e pantenol para acalmar a comichão; pH 5,0–5,5, sem clorexidina e sem ardor.
- Gotas de apoio ao equilíbrio das leveduras, 29,95 €: 19 ingredientes, de uso oral, para apoiar o conforto da pele, das orelhas e das patas de dentro para fora.
Envio grátis para Portugal (e para todo o mundo). Envio DDP: direitos e IVA já pagos, nada a pagar na entrega. Fabrico na América do Norte segundo as boas práticas de fabrico (GMP), com certificado de análise (COA) para cada lote.
Quando levar o cão ao médico veterinário
Marque uma consulta se notar algum destes sinais: abanar a cabeça ou coçar as orelhas de forma persistente, mau cheiro, secreção, vermelhidão ou inchaço, dor ao tocar na orelha, cabeça inclinada, perda de equilíbrio ou uma alteração súbita da audição. Como o dono não consegue ver o tímpano, só um médico veterinário com otoscópio pode confirmar se está intacto antes de iniciar um tratamento. Alterações do equilíbrio ou cabeça inclinada devem ser tratadas como urgência: contacte de imediato o seu médico veterinário ou um hospital veterinário com urgência 24 horas. Se o seu cão abanar a cabeça de repente e sem parar depois de um passeio no campo, pense numa pragana e não espere que passe.
Perguntas frequentes
Quais são as três partes do ouvido do cão?
O ouvido externo (pavilhão auricular e canal auditivo), o ouvido médio (tímpano e três pequenos ossículos) e o ouvido interno (cóclea e sistema do equilíbrio).
Porque é que o canal auditivo do cão tem forma de L?
O canal desce na vertical cerca de 2,5 cm e depois dobra na horizontal em direção ao tímpano. Este desenho protege o tímpano, mas também torna mais difícil a saída de resíduos e humidade.
Porque é que os cães de orelhas caídas têm mais problemas de ouvidos?
As orelhas caídas reduzem a circulação de ar no canal. Um estudo de cuidados veterinários primários no Reino Unido encontrou uma probabilidade de otite externa cerca de 1,8 vezes maior nos cães de orelhas pendentes ou caídas em V do que nos cães de orelhas eretas.
Consigo ver o tímpano do meu cão em casa?
Não. O tímpano fica no fim do canal horizontal, depois da curva, e só pode ser examinado com segurança com um otoscópio ou vídeo-otoscópio.
Os cães ouvem melhor do que as pessoas?
Os cães detetam uma gama mais ampla de frequências altas do que as pessoas. Se suspeitar de que a audição do seu cão mudou, fale com o seu médico veterinário.
As praganas podem entrar no ouvido do cão?
Sim. Em Portugal, entre a primavera e o verão, as praganas secas dos campos e das bermas entram com facilidade no canal auditivo. No estudo de Saridomichelakis e colegas, as espiguetas de gramíneas foram a causa primária em 12 de 100 cães com otite externa. Não tente retirá-las em casa: o médico veterinário remove-as com otoscópio.
Com que frequência devo limpar os ouvidos do meu cão?
Depende da raça e do estilo de vida. Verifique os ouvidos uma vez por semana e limpe quando houver cera visível ou depois de banhos e mergulhos; cães de orelhas caídas e cães que nadam muito precisam de mais atenção. Limpar sem necessidade pode irritar o canal.
Fontes
- Cole LK. Anatomy and physiology of the canine ear. Vet Dermatol. 2009;20(5-6):412-421. doi:10.1111/j.1365-3164.2009.00849.x. PMID 20178478
- Merck Veterinary Manual. Ear Structure and Function in Dogs (edição para donos).
- O'Neill DG, Volk AV, Soares T, et al. Frequency and predisposing factors for canine otitis externa in the UK: a primary veterinary care epidemiological view. Canine Med Genet. 2021;8(1):7. doi:10.1186/s40575-021-00106-1. Texto completo (PMC)
- Saridomichelakis MN, Farmaki R, Leontides LS, Koutinas AF. Aetiology of canine otitis externa: a retrospective study of 100 cases. Vet Dermatol. 2007;18(5):341-347. PMID 17845622
- DGAV, Medicamentos veterinários — dgav.pt
- Regulamento (UE) 2019/6, relativo aos medicamentos veterinários — EUR-Lex
Este artigo tem fins exclusivamente informativos e não substitui o aconselhamento do seu médico veterinário; consulte-o sempre sobre a saúde dos ouvidos do seu cão.