Treino de cães: guia de iniciação e como escolher um treinador

Dog training: focused black and white Border Collie sitting attentively during a training session

O treino de cães eficaz resume-se a três coisas: recompensar o comportamento que quer no preciso momento em que acontece, gerir o ambiente para que o comportamento errado seja difícil de praticar e manter as sessões curtas o suficiente para que o seu cão continue a gostar delas. Não é uma filosofia de treinador: é a direção para onde aponta a investigação revista por pares, é o que recomenda a American Veterinary Society of Animal Behavior (AVSAB) e coincide com a posição da Sociedade Europeia de Etologia Clínica Veterinária (ESVCE) contra as coleiras elétricas. Um dos estudos mais citados sobre o tema foi, aliás, feito em Portugal, com cães de escolas de treino da área metropolitana do Porto. A parte difícil, para a maioria dos tutores, é outra: saber que problemas pode resolver sozinho, quais pedem um profissional e quais são, na verdade, uma questão de saúde disfarçada de mau comportamento.

Este guia trata dos três casos, explica o que a lei portuguesa exige (sobretudo a quem tem um cão de raça potencialmente perigosa), ajuda a escolher um bom treinador de cães e propõe um plano de duas semanas que pode começar hoje à noite.

O que a investigação diz sobre os métodos de treino de cães

O treino canino está cheio de opiniões confiantes. A evidência publicada é mais restrita, e bastante mais coerente, do que a internet faz crer.

Em 2017, Gal Ziv publicou no Journal of Veterinary Behavior uma revisão de 17 estudos que comparavam abordagens de treino. Concluiu que os métodos aversivos (punição positiva, reforço negativo por fuga ou evitamento) podem comprometer a saúde física e mental dos cães e que, embora a punição possa funcionar, não há provas de que seja mais eficaz do que o treino baseado no reforço positivo. Pelo menos três dos estudos analisados sugerem até o contrário, tanto em cães de família como em cães de trabalho.

Em 2020, Vieira de Castro e colegas, investigadores do i3S e do ICBAS da Universidade do Porto, publicaram na PLOS ONE um estudo que interessa diretamente aos tutores portugueses. Acompanharam 92 cães de companhia recrutados em escolas de treino da área metropolitana do Porto: três escolas baseadas em recompensa e quatro que recorriam a métodos aversivos, duas em pequena proporção (grupo misto) e duas em grande proporção (grupo aversivo). Filmaram três sessões de treino de cada cão e mediram o cortisol na saliva em casa e depois do treino. Os cães das escolas aversivas mostraram mais comportamentos de stress (lamber os lábios, bocejar), estiveram mais vezes tensos, ofegaram mais e tiveram subidas de cortisol pós-treino mais altas do que os cães das escolas de recompensa. Num teste de viés cognitivo, feito fora do contexto de treino, foram também mais «pessimistas». O grupo misto mostrou igualmente mais sinais de stress durante o treino do que o grupo de recompensa. Conclusão dos autores: os métodos aversivos, sobretudo quando usados em grande proporção, comprometem o bem-estar dos cães dentro e fora do treino.

No mesmo ano, China, Mills e Cooper testaram a questão prática na Frontiers in Veterinary Science. Distribuíram 63 cães com problemas conhecidos quando andam sem trela, como a falta de regresso à chamada, por três grupos de 21, com até 150 minutos de treino ao longo de cinco dias. Um grupo foi treinado com coleira elétrica por treinadores indicados pelos fabricantes; outro, pelos mesmos treinadores sem coleira elétrica; o terceiro, por treinadores independentes centrados no reforço positivo. Este último grupo obteve melhores respostas ao «anda cá» e ao «senta» à primeira ordem e respondeu mais depressa do que o grupo da coleira elétrica. Os autores concluíram que não há evidência de que o treino com coleira elétrica seja necessário, nem sequer para a indicação mais citada para o seu uso.

A declaração de posição de 2021 da AVSAB sobre o treino humano de cães traça a linha óbvia: só métodos baseados em recompensa, incluindo para problemas de comportamento, e nenhuma evidência de que o treino aversivo seja necessário. Do lado europeu, a ESVCE publicou em 2018 a fundamentação da sua posição sobre os dispositivos de treino eletrónicos: opõe-se fortemente ao uso de coleiras elétricas no treino de cães e pede a todos os países europeus que tomem posição sobre esta questão de bem-estar.

Em Portugal, o quadro legal aponta na mesma direção. A Convenção Europeia para a Proteção dos Animais de Companhia, aprovada por Portugal pelo Decreto n.º 13/93 e aplicada pelo Decreto-Lei n.º 276/2001, estabelece no artigo 7.º que nenhum animal de companhia deve ser treinado de forma prejudicial à sua saúde ou ao seu bem-estar, nomeadamente forçando-o a ultrapassar as suas capacidades naturais ou recorrendo a meios artificiais que causem ferimentos, dor, sofrimento ou angústia desnecessários.

O que ainda é incerto: grande parte desta literatura assenta em inquéritos e em amostras relativamente pequenas, e o acompanhamento a longo prazo é limitado. O que não está em discussão é a direção: nada na evidência atual dá às ferramentas aversivas uma vantagem que compense o seu custo em bem-estar.

Problema de treino, de gestão ou de saúde? Um crivo em quatro passos

Há tutores que passam meses a treinar um problema que nunca foi um problema de treino. Passe a situação do seu cão por este crivo antes de pagar um curso.

Passo 1: é novo, súbito ou fora do habitual?

Um cão adulto que já fazia as necessidades na rua e começa a urinar dentro de casa, um cão simpático que passa a reagir quando lhe tocam, um cão que de repente deixa de saltar para o sofá, uma inquietação noturna nova ou uma mudança de apetite a acompanhar a mudança de comportamento: isto é, antes de mais, uma questão veterinária. Mills e colegas (2020, Animals) analisaram 100 casos recentes de comportamento canino referenciados a vários dos autores e estimaram, de forma conservadora, que cerca de um terço envolve alguma condição dolorosa; em algumas casuísticas, o valor aproxima-se dos 80%. As dores musculoesqueléticas são as mais conhecidas, mas problemas gastrointestinais e de pele dolorosos também pesam. Marque a consulta antes do treinador.

Passo 2: envolve medo, agressividade ou pânico?

Rosnar, morder, dar dentadas de aviso, guardar recursos (comida, brinquedos, o sofá), entrar em pânico quando fica sozinho ou reagir de forma extrema à trela: isto é matéria para um profissional qualificado, idealmente um médico veterinário especialista em medicina do comportamento (DACVB ou, na Europa, diplomado ECAWBM), um comportamentalista animal aplicado certificado (CAAB) ou um consultor de comportamento CBCC-KA a trabalhar em conjunto com o seu veterinário. Não siga protocolos genéricos do YouTube para a agressividade. Suprimir um rosnido tira-lhe o sistema de alarme; não tira a emoção que está por baixo. Se o problema é a ansiedade de separação, o nosso artigo sobre medicamentos para a ansiedade de separação do cão resume o que os ensaios clínicos testaram; em Portugal, esses medicamentos só se obtêm com receita veterinária.

Passo 3: o cão consegue simplesmente praticar o comportamento?

Roubar comida da bancada, remexer no lixo, roer sapatos, fugir pela porta da rua, acidentes de cachorro: isto é uma questão de gestão. Barreiras de segurança para portas e escadas, uma caixa de treino, portas fechadas, comida fora das bancadas e uma trela dentro de casa resolvem estes casos mais depressa do que qualquer comando. Gerir não é fazer batota: impede o cão de ensaiar um comportamento que é recompensado de cada vez que resulta. Uma porta fechada ou uma barreira bem colocada vale mais do que cem «não».

Passo 4: o cão está calmo, saudável e simplesmente não sabe o que lhe pede?

Sentar, deitar, regresso à chamada, andar com a trela solta, acalmar-se num tapete, cumprimentar sem saltar: isto é uma questão de treino, e é a que pode perfeitamente resolver sozinho com o plano abaixo ou com uma boa aula de grupo.

A maior parte dos problemas reais é uma mistura, normalmente gestão mais treino. A agressividade e a ansiedade de separação são as duas categorias mais vezes confundidas com problemas de treino, e são precisamente aquelas em que avançar sozinho tende a piorar as coisas.

Como escolher um treinador de cães em Portugal

Em Portugal, treinar cães de família não é uma profissão regulamentada: não há licença, nem exame obrigatório, nem barreira legal à entrada. Qualquer pessoa pode pôr «treinador certificado» ou «comportamentalista» na carrinha amanhã, e alguns dos títulos que mais impressionam vêm de um workshop de fim de semana ou da própria empresa do treinador. A grande exceção legal diz respeito aos cães perigosos e potencialmente perigosos.

O que a lei portuguesa exige para cães potencialmente perigosos

O Decreto-Lei n.º 315/2009, alterado pela Lei n.º 46/2013, e a Portaria n.º 317/2015 criaram um regime próprio para os cães perigosos e para as sete raças classificadas como potencialmente perigosas pela Portaria n.º 422/2004: Cão de Fila Brasileiro, Dogue Argentino, Pit Bull Terrier, Rottweiler, Staffordshire Terrier Americano, Staffordshire Bull Terrier e Tosa Inu.

  • Formação obrigatória do detentor. Quem tem um destes cães tem de fazer, com aproveitamento, uma formação de 4 horas seguida de uma prova escrita de 30 minutos, ministrada pela GNR ou pela PSP. O programa cobre a legislação e a detenção responsável, o comportamento, a socialização e o treino de cães e a abordagem à mordedura. O comprovativo é exigido para obter a licença de detenção na junta de freguesia.
  • Treino obrigatório do cão. O detentor tem de promover o treino do cão, de preferência entre os 6 e os 12 meses de idade, e esse treino só pode ser dado por treinadores com certificado emitido pela GNR ou pela PSP depois de provas teóricas e práticas. O certificado é válido por 10 anos e a DGAV publica a lista de treinadores certificados.
  • Uma meta concreta. Segundo as normas técnicas de certificação da GNR e da PSP, o treino obrigatório só se considera concluído quando o cão obtém a classificação de «apto» numa prova de obediência BH (cão de companhia) organizada pelo Clube Português de Canicultura (CPC) ou por entidade reconhecida por este.
  • Sem coleiras de bicos nem elétricas no exame. Nas provas práticas para certificar estes treinadores, o material autorizado limita-se a uma trela curta de até um metro, um açaimo funcional e coleira ou peitoral; as coleiras não podem ser de bicos e as coleiras elétricas estão excluídas em qualquer caso.

É um sinal claro: nem no exame dos treinadores dos cães que a lei considera de maior risco estes instrumentos são aceites. Mesmo que o seu cão seja um rafeiro tranquilo ou um Cão de Água Português, use a mesma bitola quando avaliar uma escola de treino canino.

Credenciais independentes: o que cada título exige realmente

Para os restantes cães, as credenciais independentes, atribuídas por terceiros, são o mais parecido que existe com um filtro. Os títulos de treino mais conhecidos nasceram em organismos americanos, mas são internacionais: há profissionais certificados a trabalhar na Europa e a maioria destes organismos mantém um diretório público. Na medicina do comportamento existe também uma especialidade veterinária europeia. Eis o que cada título exige realmente.

Credencial Atribuída por O que exige realmente Indicada para
CPDT-KA
Certified Professional Dog Trainer – Knowledge Assessed
CCPDT (organismo certificador independente) Idade mínima de 18 anos, ensino secundário concluído ou equivalente, pelo menos 300 horas de experiência em treino de cães nos três anos anteriores (225 ou mais como horas de ensino direto), declaração de um profissional qualificado e um exame vigiado sobre teoria da aprendizagem, competências de ensino, comportamento canino e ética. Renovação a cada 3 anos com formação contínua. Aulas para cachorros, obediência básica e intermédia, boas maneiras
KPA CTP
Karen Pryor Academy Certified Training Partner
Karen Pryor Academy (uma escola de treino) Conclusão do programa profissional para treinadores, de cerca de seis meses, com trabalhos escritos avaliados e uma avaliação prática de competências. É uma qualificação de escola e não um exame independente, mas é substancial e assumidamente baseada em recompensa. Precisão técnica com marcadores e modelagem; bons treinadores de cães de família
CBCC-KA
Certified Behavior Consultant Canine – Knowledge Assessed
CCPDT Idade mínima de 18 anos, ensino secundário concluído ou equivalente, pelo menos 300 horas de experiência em consultoria de comportamento canino nos três anos anteriores, especificamente em medo, fobias, comportamentos compulsivos, ansiedade e agressividade, declaração de um profissional e um exame de 200 perguntas. Casos de medo, reatividade, ansiedade e agressividade (em conjunto com o seu veterinário)
CAAB / ACAAB
(Associate) Certified Applied Animal Behaviorist
Animal Behavior Society CAAB: doutoramento numa ciência biológica ou comportamental com ênfase no comportamento animal e cinco anos de experiência profissional aplicada (ou licenciatura em medicina veterinária com dois anos de residência e três anos de experiência), mais uma comunicação oral ou um póster apresentado num congresso anual da sociedade. ACAAB: equivalente ao nível de mestrado, com pelo menos dois anos de experiência. Casos de comportamento complexos; modificação de comportamento fundamentada na investigação
DACVB
Diplomate, American College of Veterinary Behaviorists
ACVB (especialidade reconhecida pela associação veterinária americana) Curso de medicina veterinária e, depois, uma residência de pelo menos dois anos (normalmente três) dedicada exclusivamente ao comportamento, casuística supervisionada, ensino, investigação original publicada numa revista com revisão por pares e um exame de especialidade. O nível mais alto. Pode diagnosticar causas médicas e prescrever medicação comportamental. Agressividade, ansiedade de separação grave, perturbações compulsivas.
Dipl. ECAWBM (BM)
Especialista Veterinário Europeu em Medicina do Comportamento
ECAWBM, colégio europeu reconhecido pelo European Board of Veterinary Specialisation (EBVS) Ser médico veterinário, completar um programa de formação de vários anos em medicina do comportamento (as residências atuais duram três anos) e ser aprovado num exame de especialidade exigente. O equivalente europeu do DACVB: diagnóstico de causas médicas, prescrição e casos graves

Só os DACVB e os diplomados ECAWBM são, por definição, médicos veterinários. Só eles, e os médicos veterinários em geral, podem diagnosticar e prescrever. Em Portugal, o exercício da medicina veterinária exige inscrição na Ordem dos Médicos Veterinários (OMV), e a medicação comportamental, como qualquer medicamento veterinário sujeito a receita, segue o Regulamento (UE) 2019/6. Fora disto, a palavra «comportamentalista» não é protegida: verifique as letras, não o rótulo. Há médicos veterinários em Portugal com consulta de medicina do comportamento, e o seu veterinário assistente pode referenciá-lo.

Cinco perguntas a fazer antes de contratar um treinador

  • «O que acontece quando o meu cão acerta, e o que acontece quando erra?» Uma resposta vaga, ou que fale em puxões de trela, coleiras de bicos ou coleiras elétricas, já é a sua resposta.
  • «Que certificação tem e quem a emitiu?» Depois confirme pessoalmente no diretório desse organismo. Se o seu cão for de raça potencialmente perigosa, confirme também se o treinador consta da lista de treinadores certificados publicada pela DGAV.
  • «Posso assistir a uma aula antes de me inscrever?» Uma recusa é um sinal de alarme. Um internato de treino (o cão fica alojado na escola) que não pode observar também.
  • «Em que casos me encaminharia para um médico veterinário?» Os bons treinadores encaminham. Quem diz que resolve tudo não resolve nada.
  • Garante resultados? Garantias de comportamento são uma alegação de marketing, não uma prática profissional.

Treinar um cão em casa: plano realista para as duas primeiras semanas

Três a cinco sessões por dia, de dois a cinco minutos cada. Curtas e frequentes ganham sempre a uma sessão longa e frustrante. Use petiscos macios, do tamanho de uma ervilha, de que o seu cão goste mesmo, e desconte-os da ração diária para não somar calorias sem dar por isso.

Dias 1 a 3: o marcador e o nome

Carregue o marcador. Diga uma palavra curta e nítida, como «sim», ou carregue num clicker, e dê logo a seguir um petisco. Repita 15 vezes, duas vezes por dia. Ainda não está a pedir nada: está a ensinar ao cão que aquele som anuncia comida, o que o transforma numa ferramenta de precisão para marcar o momento exato do comportamento certo.

Resposta ao nome. Quando o cão não estiver a olhar para si, diga o nome dele uma vez. No instante em que vira a cabeça, marque e recompense. Nunca repita o nome três vezes seguidas e nunca o use para algo desagradável. Dez repetições por dia, a começar numa divisão sossegada.

A caixa de treino e a higiene começam no primeiro dia. Dê todas as refeições dentro da caixa, primeiro com a porta aberta. Leve o cachorro à rua ao acordar, depois de comer, depois de brincar e, no resto do tempo, a cada 60 a 90 minutos. Vá sempre ao mesmo sítio, espere em silêncio, marque o momento em que ele acaba de fazer as necessidades e recompense ali mesmo, lá fora. Se vive num apartamento sem quintal, escolha um canteiro ou uma zona de relva perto de casa e seja consistente. Os acidentes dentro de casa limpam-se com um produto enzimático e sem qualquer reação: o castigo depois do facto ensina o cão a esconder-se de si, não a aguentar.

Dias 4 a 7: o «senta» e as bases do regresso à chamada

Senta. Segure um petisco junto ao focinho do cão e leve-o devagar para trás, por cima da cabeça. A garupa baixa. Marque no instante em que toca no chão e recompense. Depois de uns dez sucessos, deixe de ter comida na mão que guia e faça o mesmo gesto com a mão vazia, dando o petisco com a outra mão. Só junte a palavra «senta» quando o comportamento já for fiável, dizendo-a mesmo antes do gesto.

Bases do regresso à chamada. Dentro de casa, duas pessoas a cerca de três metros uma da outra. Uma diz o nome do cão e «anda cá» num tom alegre; o cão corre até ela; marque, recompense com generosidade e liberte-o. Três a cinco repetições e pare enquanto ele ainda quer mais. Nunca chame o cão para algo de que ele não gosta, como o banho, o corte das unhas ou a saída do parque: nesses casos, vá buscá-lo. Para tornar o banho e as unhas menos penosos, o treino de consentimento e os cuidados cooperativos são o passo seguinte natural.

Dias 8 a 14: mais dificuldade, uma variável de cada vez

Agora mude uma coisa por sessão (distância, duração ou distração), nunca duas. Pratique o «senta» na cozinha, depois no corredor, depois no quintal ou à porta do prédio. Aumente o tempo na caixa para 10 e depois 20 minutos com um brinquedo recheado para roer, saindo sempre antes de ele começar a protestar. Leve o regresso à chamada para o exterior com uma trela longa. Conte com uma quebra visível de fiabilidade sempre que o cenário muda: é normal, não é um retrocesso.

No verão, treine no exterior ao início da manhã ou ao fim do dia. O calor cansa depressa, o alcatrão e a calçada aquecem ao sol e um cão ofegante dificilmente se concentra. Leve sempre água e faça as sessões à sombra.

Expectativas realistas: duas semanas de sessões curtas e consistentes costumam dar um «senta» fiável dentro de casa, uma boa resposta ao nome, um regresso à chamada entusiasta em ambientes com poucas distrações e um cachorro que aguenta claramente mais tempo entre acidentes. Um regresso à chamada sólido na rua, com distrações reais, leva meses, e a maioria dos cães só passa a fazer as necessidades sempre lá fora entre os quatro e os seis meses de idade. Os cachorros também regridem na adolescência: é uma fase do desenvolvimento, não um fracasso.

Cachorros: a janela de socialização conta mais do que o «senta»

A declaração de posição da AVSAB sobre a socialização de cachorros é invulgarmente direta: a janela principal, e a mais importante, são os primeiros três meses de vida, e os cachorros devem começar a ser socializados antes de terem a vacinação completa, porque os problemas de comportamento, e não as doenças infeciosas, são a principal causa de morte em cães com menos de três anos. A AVSAB indica que os cachorros podem começar as aulas a partir das 7 a 8 semanas, desde que tenham recebido pelo menos uma dose de vacinas no mínimo sete dias antes.

Em Portugal, acrescente a isto duas obrigações legais e dois cuidados locais:

  • Microchip e registo no SIAC até aos 120 dias de idade. O microchip é colocado pelo médico veterinário, que regista o cachorro no Sistema de Informação de Animais de Companhia, nos termos do Decreto-Lei n.º 82/2019.
  • Vacina antirrábica a partir dos 3 meses. Segundo a DGAV, é obrigatória para todos os cães a partir dessa idade; o médico veterinário integra-a no plano de vacinação do cachorro.
  • Processionária do pinheiro. Entre janeiro e abril, as lagartas descem dos pinheiros em fila e os seus pelos urticantes podem causar lesões graves na boca e na língua de um cachorro curioso que as cheire ou abocanhe. Nessa época, evite pinhais e parques com pinheiros nas sessões de socialização.
  • Leishmaniose. Nas regiões onde é endémica, como o Alentejo, o Algarve, Lisboa e Vale do Tejo e o Douro e Trás-os-Montes, os flebótomos que a transmitem picam sobretudo ao entardecer e à noite, nos meses quentes. Pergunte ao veterinário quando e como proteger o cachorro antes de começar os passeios ao fim do dia.

Fale com o seu veterinário sobre como equilibrar exposição e risco na sua zona, sobretudo antes de a vacinação estar completa (parvovirose, esgana): levar um cachorro pequeno ao colo a uma loja de bricolage ou a uma esplanada sossegada é mais seguro do que soltá-lo num parque canino. Se escolher uma aula para cachorros numa escola de treino ou numa clínica veterinária, pergunte que vacinas exigem, se o espaço é desinfetado e se os cachorros brincam separados por idade e tamanho.

Cinco erros que estragam um bom treino canino

  • Repetir a ordem. «Senta, senta, SENTA» ensina que a palavra só vale à terceira.
  • Treinar só quando corre mal. A maior parte da aprendizagem deve acontecer quando não se passa nada.
  • Recompensar devagar demais. Passado cerca de um segundo, o cão associa o petisco ao que fez a seguir.
  • Saltar a gestão. Cada assalto bem-sucedido à bancada é um ensaio pago.
  • Partir do princípio de que é teimosia. Um cão que «sabe mas não faz» está, geralmente, acima do limiar, com dor, ou nunca praticou naquele contexto.

Calma, sono e articulações: onde entram os suplementos (e onde não entram)

Nenhum suplemento, alimento ou produto resolve um problema de comportamento, e nenhum deve substituir a avaliação veterinária ou o treino. Na União Europeia, os suplementos para animais são alimentos complementares e, nos termos do Regulamento (CE) n.º 767/2009, não podem alegar efeitos de prevenção, tratamento ou cura de doenças. É exatamente assim que os deve ver: um apoio que facilita a vida ao cão e ao tutor enquanto o treino e a gestão fazem o seu trabalho.

Foguetes, trovoadas e viagens. Em Portugal, o calendário de stress de muitos cães está marcado: os Santos Populares em junho, as festas de verão com foguetes, a passagem de ano, as trovoadas, as viagens de férias. O trabalho de fundo é comportamental: dessensibilização gradual aos sons, um esconderijo seguro em casa e gestão das saídas. Para os dias previsíveis, a melatonina para cães Pure Majesty Pets (29,95 €) é um apoio líquido à calma e ao sono: cada mL contém 3 mg de melatonina, 50 mg de L-teanina, 25 mg de alfa-casozepina, 25 mg de extrato de camomila, 5 mg de magnésio e 0,5 mg de vitamina B6 (P5P), sem xilitol. Dá-se cerca de 30 minutos antes do acontecimento ou da hora de deitar, na quantidade indicada no rótulo para o peso do cão e confirmada com o médico veterinário. Aprofundamos o tema no artigo sobre melatonina para cães com medo de foguetes.

Rotinas de caixa e de deitar. Um cão adulto que não sossega à noite, ou que ainda se está a habituar à caixa de treino, beneficia de um ritual previsível: passeio, necessidades, um brinquedo para roer e luz baixa. A mesma melatonina líquida foi pensada também para estas rotinas, como um sinal calmo de que é hora de descansar. Num cachorro, num cão medicado ou numa cadela gestante, fale primeiro com o médico veterinário, como indica o rótulo.

Cães ativos e desporto canino. Se o treino evoluir para agility, canicross, obediência de competição ou longas caminhadas na serra, as articulações passam a trabalhar mais, sobretudo em raças grandes como o Cão da Serra da Estrela ou o Rafeiro do Alentejo, em que o peso aumenta a carga. Lembre-se do Passo 1: um cão que de repente se recusa a saltar ou rosna quando lhe tocam pode estar com dor, e isso pede uma consulta, não um suplemento. Com luz verde do veterinário, os mastigáveis articulares Pure Majesty Pets (49,95 €) reúnem 17 ingredientes ativos, entre eles glucosamina, condroitina, MSM, mexilhão-verde, colagénio tipo II não desnaturado (UC-II) e ácido hialurónico, num mastigável macio fácil de dar todos os dias para apoiar a mobilidade.

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Calma nos dias difíceis, articulações prontas para os dias ativos

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Perguntas frequentes

Quanto tempo demora a treinar um cão?

Os comandos básicos numa divisão sossegada aprendem-se em dias. A fiabilidade com distrações reais leva meses, e a manutenção é para toda a vida. A maioria dos cachorros só passa a fazer as necessidades sempre lá fora entre os quatro e os seis meses. Quem promete um cão «pronto» em duas semanas está a vender supressão, não aprendizagem.

O reforço positivo chega para um cão teimoso ou forte?

A evidência controlada diz que sim. China, Mills e Cooper (2020) testaram cães com problemas conhecidos quando andam sem trela, exatamente o tipo de cão para o qual as coleiras elétricas são vendidas, e o treino centrado no reforço positivo obteve melhores respostas à primeira ordem do que o treino com coleira elétrica. A AVSAB recomenda métodos baseados em recompensa para todos os cães, incluindo para problemas de comportamento.

Coleiras elétricas, coleiras de bicos ou «alpha rolls» são alguma vez adequados?

A evidência atual, a declaração de posição de 2021 da AVSAB e a posição da ESVCE, que se opõe fortemente às coleiras elétricas, não apoiam o seu uso. Os métodos aversivos estão associados a respostas de stress, a subidas de cortisol e, em estudos por inquérito, a comportamentos agressivos e ansiosos, sem vantagem de eficácia demonstrada. Também não há suporte científico para a ideia de «dominância» com que estas ferramentas costumam ser vendidas. Em Portugal, as normas de certificação dos treinadores de cães potencialmente perigosos excluem as coleiras de bicos e as elétricas das provas práticas.

Aula de grupo, aulas particulares ou internato de treino?

As aulas de grupo são excelentes para cachorros e para as boas maneiras do dia a dia: a distração controlada é uma vantagem. As aulas particulares servem para problemas específicos e para cães que têm dificuldade perto de outros cães. O internato de treino é a opção mais arriscada: não vê os métodos usados, não aprende as competências e o comportamento muitas vezes não passa para casa. Se o considerar, exija observar as instalações durante o treino.

O comportamento do meu cão mudou de repente. É um problema de treino?

Parta do princípio de que não, até o veterinário dizer o contrário. Agressividade súbita, um adulto que volta a fazer as necessidades em casa, nova sensibilidade aos ruídos ou relutância em mexer-se ou em ser tocado justificam um exame veterinário com avaliação ortopédica e da dor. Mills e colegas (2020) encontraram condições dolorosas numa parte substancial dos casos de comportamento referenciados.

O treino de cães é obrigatório em Portugal?

Só para os cães perigosos e potencialmente perigosos. O detentor tem de fazer uma formação de 4 horas com prova escrita, dada pela GNR ou pela PSP, e de promover o treino do cão, de preferência entre os 6 e os 12 meses, com um treinador certificado que conste da lista publicada pela DGAV. Para os restantes cães o treino não é obrigatório, mas é a melhor forma de garantir um cão seguro e feliz.

Com que idade pode um cachorro começar as aulas de treino?

A AVSAB indica que as aulas para cachorros podem começar às 7 a 8 semanas, desde que o cachorro tenha recebido pelo menos uma dose de vacinas no mínimo sete dias antes. Em Portugal, o cachorro deve ter microchip e registo no SIAC até aos 120 dias e a vacina antirrábica é obrigatória a partir dos 3 meses. Combine o calendário com o seu veterinário e prefira grupos pequenos, com regras de vacinação claras.

Fontes

  • Ziv, G. (2017). The effects of using aversive training methods in dogs — A review. Journal of Veterinary Behavior 19:50–60 — DOI
  • Vieira de Castro, A.C., et al. (2020). Does training method matter? Evidence for the negative impact of aversive-based methods on companion dog welfare. PLOS ONE 15(12): e0225023, PMID 33326450 — PLOS ONE
  • China, L., Mills, D.S., Cooper, J.J. (2020). Efficacy of Dog Training With and Without Remote Electronic Collars vs. a Focus on Positive Reinforcement. Frontiers in Veterinary Science 7:508, PMID 32793652 — Frontiers
  • Mills, D.S., et al. (2020). Pain and Problem Behavior in Cats and Dogs. Animals 10(2):318, PMID 32085528 — PMC
  • Masson, S., et al. (2018). Electronic training devices: discussion on the pros and cons of their use in dogs as a basis for the position statement of the European Society of Veterinary Clinical Ethology. Journal of Veterinary Behavior 25:71–75 — DOI
  • AVSAB (2021). Position Statement on Humane Dog Training — avsab.org
  • AVSAB. Position Statement on Puppy Socialization — avsab.org
  • CCPDT, requisitos de certificação — ccpdt.org
  • Animal Behavior Society, requisitos CAAB/ACAAB — animalbehaviorsociety.org
  • ACVB, certificação — dacvb.org
  • European College of Animal Welfare and Behavioural Medicine (ECAWBM) — ecawbm.org
  • Convenção Europeia para a Proteção dos Animais de Companhia, aprovada pelo Decreto n.º 13/93, de 13 de abril — Diário da República
  • Decreto-Lei n.º 276/2001, de 17 de outubro (aplicação da Convenção Europeia para a Proteção dos Animais de Companhia)
  • Decreto-Lei n.º 315/2009, de 29 de outubro, alterado pela Lei n.º 46/2013, de 4 de julho (animais perigosos e potencialmente perigosos); Portaria n.º 422/2004 (raças potencialmente perigosas); Portaria n.º 317/2015, de 30 de setembro (formação de detentores e certificação de treinadores)
  • GNR/PSP, Normas técnicas de certificação de treinadores de cães perigosos e potencialmente perigosos (SACT) — gnr.pt
  • DGAV, identificação de cães, gatos e furões (Decreto-Lei n.º 82/2019) — dgav.pt
  • SIAC, Sistema de Informação de Animais de Companhia — siac.pt
  • DGAV, raiva (vacinação antirrábica obrigatória) — dgav.pt
  • ICNF, processionária do pinheiro — icnf.pt
  • Schallig HD, Cardoso L, Semião-Santos SJ, "Seroepidemiology of canine leishmaniosis in Évora (southern Portugal): 20-year trends," Parasites & Vectors (2013), PMID 23587181 — PMC
  • Regulamento (CE) n.º 767/2009, colocação no mercado e utilização de alimentos para animais — EUR-Lex
  • Regulamento (UE) 2019/6, medicamentos veterinários — EUR-Lex
  • Ordem dos Médicos Veterinários (OMV) — omv.pt
  • Clube Português de Canicultura (CPC) — cpc.pt

Nota sobre o âmbito deste guia

Este artigo é informação educativa geral e não substitui o aconselhamento do seu médico veterinário nem uma avaliação comportamental individual do seu cão. A agressividade, as autolesões, o pânico e qualquer mudança súbita de comportamento devem ser avaliados pelo médico veterinário, que pode excluir dor e causas médicas e referenciá-lo para um especialista em medicina do comportamento (DACVB ou diplomado ECAWBM) ou para um consultor de comportamento certificado e qualificado. Nenhum suplemento, alimento ou produto trata, evita ou resolve um problema de comportamento, e nenhum deve ser usado em vez da avaliação veterinária ou do treino.